gambiarras • negros cruéis tentadores • batalhões de estranhos • lá no milton’s bar • o mar se levanta com tal desespero • campo da pólvora • santa ceia na ilha amarela • rolimãs • água brusca • soterrópolis • benguela • rampa

Um conjunto de dezessete histórias que retrata particularidades da capital baiana, mas que apresenta também questões universais. Em seu terceiro trabalho individual, Tom Correia trata ficcionalmente múltiplos aspectos de uma cidade singular, que termina se revelando como um personagem à parte. Sarcasmo e ironia são elementos marcantes utilizados pelo autor para apresentar, por exemplo, crianças envolvidas numa guerra de facções e o viés dos excluídos que gravitam em torno do carnaval. Contudo, também há espaço para o lirismo ao se revisitar um tempo esquecido, época em que a Cidade da Bahia abrigava o maior porto das Américas. O livro tem apresentação do crítico literário André Seffrin e posfácio do escritor e antropólogo Ordep Serra. Publicado em 2015.

 

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negros cruéis tentadores

 

Você lembra quando o Tapajós fazia a curva em frente à Casa d’Itália, não lembra? A massa se movendo sob o som que atravessava tímpanos em direção a peitos agitados, dançando e pulando sem sentido, mandando pelos ares o que havia de errado na vida, sem ligar pras carteiras roubadas, beijos repletos de suor e bactérias, mamães-sacode e mortalhas, pochetes e lança-perfumes pululando ao redor de trios em forma de tubarões, garrafas de Saborosa, naves espaciais, borrifos de água refrescando quem ia atrás do monstro que vomitava acordes e batuques por todos os poros. Pouco importava se apenas gente branquinha e bonita já desfilava na parte de dentro das cordas, se apenas o povo-negão mendigava atenção na parte de fora. Meganhas abriam caminho com seus cassetetes gigantescos, precursores dos impassíveis PMs da Caatinga, que fustigariam rins e fígados desavisados, algemariam malhados, vagabundos e arruaceiros embalados pelo som contínuo a ditar a marcha. De repente, clarões se abriam desafiando as leis da física, vários corpos ocupando o único espaço possível, separando gente em camadas, revelando brevemente o asfalto, liso e intacto, diante dos milhões de pés pisoteando-o freneticamente.

A sequência de pequenas confusões com a polícia não me assustou, só me deixou alerta. Seria um problema a mais se me pegassem em flagrante, já havia calculado o risco. Um grupo de caretas coloridas passou rapidamente e eu sorri ao vê-los desfilando, pois me vi sendo levado pelo tio no meu primeiro baile de carnaval, época em que uma pequena princesa me deixara na mão e inaugurou uma notável trajetória de desenganos. Eu pulava atrás de todos os trios e bebia em grandes goles, muito atento ao círculo do inferno ao meu redor. Examinava cada rosto parecido com o de Taiane, na esperança de executar meu predominante esquema mitológico e sair logo dali. Ao longo da avenida era a mesma coisa de todo ano, mas o povo se comportava como se tudo fosse inédito, e isso deixava todos inexplicavelmente mais eufóricos. De vez em quando eu conseguia espaço em cima do meio-fio, comprava mais cerveja e esperava ela passar a uma distância acessível. Era certo que estivesse metida em algum canto perto dali, o informante era de confiança, e eu precisava ter cuidado pra não vacilar. Taiane, tão cheia de ardis e manhas, que me causaram tanto vexame no prediozinho onde a gente morava. Bateu um remorso danado. Mesmo sem ter como afirmar se ela havia feito algo de errado, eu já estava num ponto sem volta, isso não tinha importância. Só não podia olhar diretamente nos seus olhos, negrume de tamanha beleza e crueldade, que desnorteavam incautos, nocauteavam inocentes.

Você lembra quando o Tapajós fazia a curva em frente à Casa d’Itália, não lembra? A massa se movendo sob o som que atravessava tímpanos em direção a peitos agitados, dançando e pulando sem sentido, mandando pelos ares o que havia de errado na vida, sem ligar pras carteiras roubadas, beijos repletos de suor e bactérias, mamães-sacode e mortalhas, pochetes e lança-perfumes pululando ao redor de trios em forma de tubarões, garrafas de Saborosa, naves espaciais, borrifos de água refrescando quem ia atrás do monstro que vomitava acordes e batuques por todos os poros. Pouco importava se apenas gente branquinha e bonita já desfilava na parte de dentro das cordas, se apenas o povo-negão mendigava atenção na parte de fora. Meganhas abriam caminho com seus cassetetes gigantescos, precursores dos impassíveis PMs da Caatinga, que fustigariam rins e fígados desavisados, algemariam malhados, vagabundos e arruaceiros embalados pelo som contínuo a ditar a marcha. De repente, clarões se abriam desafiando as leis da física, vários corpos ocupando o único espaço possível, separando gente em camadas, revelando brevemente o asfalto, liso e intacto, diante dos milhões de pés pisoteando-o freneticamente.

Você sabe como era o Chicletão fazer a volta lá no Edifício Sulacap, não sabe? Centenas de corpos ocupando o ínfimo território ao mesmo tempo, irmanados ou inimigos letais, fraternos ou colocando o pugilato em prática, uns defendendo o sustento, outros com cara de assustados, sem alternativa a não ser rezar e pular acompanhando o coro. Eu não queria responder a todo o mistério da vida (pra quê?), até mesmo porque depois de Taiane eu descobri, a vida não tinha segredo nenhum: a maioria perde, a minoria ganha, e isso era tão certo quanto a execução do meu plano. A minha tocaia vinha de outros carnavais e, apesar do cansaço, minha gana continuava intacta. Tinha passado pelo Beco da Ribeira, vasculhado o Politeama, feito ponto no Relógio de São Pedro. Esperei o bloco da Mudança do Garcia passar pelo Campo Grande, acompanhei as carroças e o povo sambando feliz e em paz, segurando cartazes anarquistas que me faziam gargalhar no meu inseguro estado de felicidade. Na madrugada do Ilê, eu já começava a perder a esperança de encontrá-la, mesmo sabendo como Taiane se emocionava com aqueles tambores. Rainhas e negros belíssimos, tiradores de onda que se lenham o ano todo trabalhando como manicures e entregadores de pizza, balconistas e ajudantes de pedreiro, sendo discriminados por outros negros não tão belos, por branquelos feiosos, superiores só na grana, e ainda por não branquelos, superiores só no sobrenome. E foi pensando nisso, com a bebida entorpecendo meus neurônios endurecidos, que também terminei me emocionando ao lembrar o tempo feliz da nossa vidinha, até o amigo dela começar a aparecer sempre quando eu não estava. Pelo menos foi isso que me contaram, não sei. Ainda assim eu queria a fantasia eterna, mas Taiane dava seguidas provas de cansaço da rotina, desejava outra coisa, e eu me recusando a enxergar. No meio da massa patética, com o pracatum alucinógeno me anestesiando, lembrei a minha missão e não podia me desconcentrar. Nem os vinte segundos de teclado e percussão da entrada de Sene, Sené, Senegal, nem as coxas de Baby Consuelo ou a cabeleira de Buck Jones, nada poderia me impedir. Nem mesmo a roda ou o vale de Sarajane.

Você já sentiu alguma vez no peito os Filhos de Gandhi passarem na avenida? No meio do extenso fio azul e branco escorrendo ladeira abaixo, seus milhares de homens formam um corpo único, trocando colares por beijos fugidios, olhares com as mocinhas imprudentes sobre a calçada, e debochando das inofensivas ameaças de marmanjos fracos e ciumentos. Eu disputava espaço com os catadores de latinhas encurvados, velhos, crianças e mulheres, gerações inteiras extraviadas de sua função humana originalmente concebida pra viver da melhor maneira possível, mas nem mesmo pra cima são dados a olhar, pois o ganha-pão precário reside nas valas escavadas no canto do asfalto. Foram horas esperando o cheiro de alfazema e o ritmo cadenciado esvaziarem a rua. Achei até bom não encontrar meu destino, pois se Taiane tivesse aparecido ali teria sido protegida pelo “grupo da paz”. Aliás, paz porra nenhuma. Vi diversos deles saindo na mão, como faziam os Apaxes do Tororó e os Comanches, esmurrando gente nas cordas, usando suas soqueiras e “munchacos”. Cordeiros embrutecidos com suas mãos esfoladas batiam em quem surgia pela frente, distribuindo pisões vingativos, imprensando as vítimas contra muros e marquises, enquanto calculavam se receberiam as diárias, o biscoito mofado, a garrafinha de água quente, o protetor de ouvido.

Somente no encontro de trios consegui avistá-la no outro lado da rua, uma pipoca comum em fuga embriagada, exalando seu jeito atrevido de olhar sem rodeios, desconcertando as pessoas, tentando esquecer os nove anos de nossa união e o modo como eu a humilhava, oprimia, seviciava, agredia, desprezava, coagia, escravizava. Dei a volta com dificuldade, abrindo passagem no meio da turba desvairada se acotovelando sob a mão estendida do poeta. Quem percebeu a movimentação e os gestos parou de pular de modo instintivo, com medo de virar um alvo saltitante. Quando ficamos frente a frente, a pouca distância, a clareira já estava aberta. Armandinho nos enfeitiçava com os acordes de chame, chame, chame gente, e eu, suado e levemente feliz ao escutar o trecho Vitória, Lapinha, Caminho de Areia, já não via mais nada além de um rosto safado, eu era um cego visionário diante de um sorriso tenso tão familiar. Eu tinha certeza, minha vida acordaria amarrotada e a cidade amanheceria muda, apenas com a movimentação vaga de garis em uniformes laranja jogando sabão e detergente nas sobras das ruas arrependidas, vício incurável que nos envergonhava a todos no dia seguinte. Haveria os ambulantes amontoados num canto, dormindo ao lado de sacos com latinhas amassadas, fazendo a festa previsível de todo ano das agonizantes edições especiais dos jornais acéfalos. Pensei na vida que a gente não mais teria pela frente e por pouco Taiane escapa. Não trocamos palavra nem indicamos gesto algum de reconciliação repentina. Eu ainda olhei ao redor, ela podia estar acompanhada do tal amigo que nem sei se existia. O Sol acabara de nascer quando o estampido ecoou pela Praça do Povo. O trio parou de tocar. Meu coração é a liberdade.

 

2016 © tom correia