Perry também tinha sido sinistrado, e os seus ferimentos, produzidos por um desastre de motocicleta, haviam sido mais graves do que os de Dick; passara meio ano num hospital do estado de Washington e outros seis meses de muletas; muito embora o acidente tivesse ocorrido em 1952, as suas pernas cambadas, de anão, partidas em vários sítios e mal cicatrizadas, ainda lhe doíam a ponto de ele se haver transformado num viciado da aspirina. Embora tivesse menos tatuagens do que o companheiro, as suas eram mais complicadas – não trabalho feito pelo próprio, de amador, mas sim verdadeiras obras de arte, realizadas por mestres de Honolulu e de Yokohama. No bíceps direito tinha tatuado o nome Cookie, que era o de uma enfermeira com quem havia tido relações de amizade durante a sua estadia no hospital. No braço esquerdo ostentava um tigre de pêlo azul, olhos cor de laranja e dentes amarelos arreganhados; uma cobra cuspideira enrolada à volta de um punhal deslizava-lhe ao longo do braço; e por toda a parte do corpo luziam caveiras, avultavam sepulturas, desabrochavam crisântemos.

Truman Capote · A sangue frio

 2009 © tom correia

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