Fotografia

As aulas duraram alguns meses, mas se pudéssemos não terminariam tão cedo. Entrar no laboratório para revelar as fotos era um negócio magicamente demoníaco. Éramos um bando meio assustadiço. Saímos em expedição do Senac Aquidabã em direção ao Centro Histórico, que vivia o início da polêmica reforma dos anos 90. O ambiente ao redor era meio hostil, estávamos preocupados com o equipamento. Alguns levavam as suas câmeras dependuradas no pescoço, parecendo turistas deslumbrados com as ruínas do Pelourinho. Sem saber, a época era até romântica comparada aos níveis de violência de hoje. Não fomos abordados por ninguém, talvez porque reconhecidos como ‘gente de casa’. Na minha ignorância analógica, ainda não conhecia as fotos de Verger nem as de Voltaire Fraga; na minha ignorância crônica, eu não conhecia nada. Miro, Dina e os irmãos Jair e Joildo (tão criativo e que morreu tão jovem) formavam o núcleo de amigos mais próximos. Assinávamos a Revista Íris Foto e chegamos a inaugurar um grupo, o Fot.UM, que parou no meio do caminho. As reuniões eram animadas, havia muitos projetos e poucos recursos, pra variar. Eu acompanhava as fotos dos jornais, que privilegiavam a imagem com informação, especialmente os trabalhos de Wilson Besnosik (in memoriam), Aristides Alves e Arestides Baptista, todos do A Tarde. Naquele tempo era o que eu mais desejava: fazer fotos iguais às deles. Eu usava uma Canon AE-1, com lente normal de boa luminosidade e preferia usar filmes Ilford. Era o final de uma manhã de sol forte e a mulher descalça cochilava na Praça da Sé, provavelmente sob o efeito de forte ressaca. Eu devia ter feito outras sequências, usando mais a regra dos terços. Mas tudo era muito novo e eu estava fascinado por fotografar livremente nas ruas.

 

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