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Saudade portenha

 

Buenos Aires ensolarada.

De calles e avenidas bem largas;

Das sombras dos prédios imponentes que amenizam o calor.

De cidadãos distintos, educadíssimos, muy amables.

Da Mafalda de Santelmo,

Recoleta, Café Tortoni, La Bombonera,

De Borges e Cortázar.

Da pobreza com dignidade.

Dos homens que se cumprimentam com um carinhoso beijo no rosto.

Das pessoas que andam sem preocupação madrugada adentro.

Do Clarin e dos táxis pretos e amarelos,

motoristas gentis que não gostam de Messi e

se dividem ao escolher entre Maradona e Pelé como o melhor de todos os tempos.

Buenos Aires belíssima,

cujo sol e azul do céu

traduzem, com exata fidelidade poética,

a bandeira e o afável coração do povo argentino.

Gustavo Rios*


Depois de alguns dias de chuva, é fácil perceber que nossa cidade não suporta a si própria. É quando o lixo vem à superfície, as ruas se assemelham a riachos imundos e o mar parece nos odiar.  Caminhando pelas ruas com os sapatos e as bainhas das calças encharcadas, percebo o quanto de cinza Salvador esconde. O quanto de escuro, denso e interessante esta capital oculta.

Na última semana foi assim: muita chuva, engarrafamentos, lixo. Cenário muito diferente daquela imagem de lugar eternamente ensolarado. De cores excessivas, de gente absurdamente feliz.  Confesso que é o tipo de situação que em mim tem o mesmo efeito das verdadeiras epifanias. É como se minha eterna sensação de deslocamento finalmente se justificasse.

Nesses períodos em que estamos metidos num relativo caos, com trânsito parado, bocas de lobo entupidas e barrancos ameaçados, as coisas que me cercam ganham em intensidade. A quantidade de café ingerido aumenta exponencialmente, e os velhos álbuns de rock voltam ao meu hit paradeparticular. Costumo também perder mais tempo a observar as pessoas na rua e a gostar ainda mais dos meus livros. É um período de adoráveis clichês. Mas também de descobertas.

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No para-brisa do micro-ônibus está escrito à mão: “Praca da Se – Gratis”. Mal há tempo para se formar uma fila, o veículo enche rapidamente e parte com pessoas em pé. Soteropolitanos e turistas se misturam, mas são facilmente destacados uns dos outros, seja pelo jeito de falar ou pelo modo de se vestir numa tarde de sábado. O mini city-tour improvisado passa ao lado do Mercado Modelo e sobe a Ladeira da Montanha, que lembra os escombros de uma cidade sitiada: de um lado, as fachadas dos casarões carcomidos pelo tempo; do outro, moradores socialmente invisíveis que habitam os cubículos, alguns com vista para o mar. Com o trânsito livre dos finais de semana, o passeio durou 12 minutos para percorrer a Praça Castro Alves, parar na Praça da Sé e terminar na Praça Municipal, parte alta onde a cidade foi edificada por Thomé de Souza. Mas nos dias úteis, com o tráfego lento e maior fluxo de passageiros, o pseudo city-tour torna-se um castigo.

Ao custo de 15 centavos, o mesmo trajeto duraria cerca de 20 segundos, caso o ascensor mais famoso da Bahia não fosse fechado no último dia 25 de agosto devido a uma pane que atingiu duas cabines. As outras duas já estavam paradas há 20 dias. Segundo a Superintendência de Trânsito e Transporte – Transalvador, cerca de 18 mil pessoas utilizam diariamente o centenário elevador. Em valores redondos, a demanda gera anualmente quase R$ 1 milhão em passagens. Durante os últimos meses, defeitos sucessivos foram noticiados e, no final de junho deste ano, cerca de 30 pessoas ficaram presas, suspensas no ar durante quase meia hora à espera de resgate. Mais do que as vagas e previsíveis explicações oficiais sobre cronograma de manutenções e propostas de reformas, chama a atenção o estado de apatia dos soteropolitanos, que se adaptam rapidamente ao que não funciona. As únicas manifestações que estouram aqui e ali na cidade são os pneus queimados em vias públicas, geralmente é a periferia protestando contra violência policial, um atropelo fatal ou por algum motivo que não chega a ser bem esclarecido. De defeito em defeito, a situação chegou ao que se prenunciava: o fechamento temporário do Lacerda completou o ciclo que paralisou os Planos Inclinados Pilar e Gonçalves, este último, a outra opção mais viável para a rápida locomoção entre o alto e baixo da cidade partida.

O Elevador une os trechos mais turisticamente famosos da Cidade Baixa (com acesso ao Mercado Modelo, Monumento de Mário Cravo e Forte São Marcelo) aos da Cidade Alta (Praça Municipal, Palácio Rio Branco, Câmara Municipal e Pelourinho). Entretanto, o equipamento tem um papel fundamental na vida cotidiana, encurtando as distâncias, dinamizando o comércio ao seu redor e, mesmo com a derrocada do setor de Turismo, ainda atraindo visitantes estrangeiros. O tratamento que a Velha Salvador vem recebendo do Estado, aliás, é um contraponto à nova cidade projetada atualmente para um evento que apresenta ambições megalomaníacas: tudo aqui parece gravitar em torno da Copa de2014. Aimpressão que se tem ao ler declarações de quem está no comando é que a preocupação maior é com a opinião e conforto dos turistas e imprensa estrangeiros. O cidadão, bem, este pode até se beneficiar com coisa ou outra. A ordem do dia das autoridades é “mobilidade urbana”, o que quer que isso represente numa capital cujo trânsito está à beira de uma paralisia e onde há mais de 12 anos se tenta colocar em funcionamento um metrô de 6 km de percurso com custo que já ultrapassa R$ 1 bi.

                                                                  *  *  *

“O senhor me respeite!”, ouve-se uma voz irritada dentro do micro-ônibus.

“Aqui é a Bahia, não é o Rio, não…”, alguém responde.

O bate-boca surgiu repentinamente. Um homem bêbado e maltrapilho, mal conseguia falar. A turista, bastante irritada, tinha um sotaque nitidamente carioca. Quem estava no fundo, ficou sem saber ao certo a origem da discussão que continuava entre os dois. A mulher alterou ainda mais a voz, entrecortada pelos resmungos etílicos do homem que parecia sem destino certo. Isso não é problema quando a passagem é gratuita. Em média, o soteropolitano paga R$ 2,50 por um sistema de transporte imundo, caquético, que tem como símbolo maior da sua ineficiência e agonia a Estação da Lapa, problemática e suja, barulhenta e deseducada, insegura e anticidadã, o microcosmo exato da Salvador Terra de Ninguém. Assim como surgiu, a discussão terminou. O bêbado se despede do motorista com entusiasmo. Cada um segue seu rumo.

Fauna que desfila | O movimento de turistas na Praça Municipal é até razoável, levando-se em conta a época e a precária estrutura de uma cidade que insiste em vender a imagem de lugar imperdível. Há muito vem perdendo espaço em preferência para Maceió, Fortaleza e Aracaju. O posto de informações da Empresa Salvador Turismo (Saltur) – órgão oficial da Prefeitura – instalado na parte alta do Lacerda, está fechado. Não se vê relação com o fato das cabines estarem out-of-work. Visitantes sem guias de turismo são “atendidos” por vendedores de fitinhas do Senhor do Bonfim colares e pulseiras que, se realmente usados, denunciam um estado de breguice anormal. Sentados nos bancos de madeira, pedintes disfarçados de ambulantes expõem seus filhos como ferramentas de apelo na abordagem a possíveis compradores. Guardas municipais conversam sem preocupação e, perto dali, flanelinhas usando apenas bermudas sujas, confabulam maneiras de extorquir, na base da truculência, motoristas que estacionam em lugares públicos. Um vendedor de cafezinho e CDs pirata dobra a esquina pilotando um imenso carrinho que emitia som digno de um mini trio-elétrico. Chiclete com Banana nas alturas. Essas figuras exóticas talvez provoquem risos curiosos em visitantes que passam alguns dias na cidade, mas a graça se perde quando a convivência é diária, quando decibéis em exagero elegem Salvador como a líder em poluição sonora no Brasil. A Cubana, a sorveteria mais antiga, inaugurada em 1930, foi ponto de encontro no auge da Rua Chile, que até final dos anos 1960 era a que mais atraía os soteropolitanos. Atualmente, pedir um dos inúmeros lanches e sentar-se nas toscas cadeiras e mesas dispostas ao longo do mirante é desaconselhável diante dos vendedores incansáveis e dos pedidos de meninos e meninas de rua. Mas é desse ponto mais alto que se descortina uma das vistas mais belas. A Baía de Todos os Santos, iluminada pelo sol, é pontilhada pelos navios fundeados tendo ao horizonte a Ilha de Itaparica. Mais à direita, avista-se a Igreja do Bonfim e a Península de Itapagipe que abraça o mar.

Em uma capital de peculiar topografia, recortada por paredões e ladeiras íngremes, ligar as cidades alta e baixa através de um elevador foi ideia do engenheiro Antônio de Lacerda (1837-1895). Foi ele o responsável pela importação de material da Inglaterra para o início das obras em 1869. A inauguração aconteceria em dezembro de 1873 e o Elevador Hidráulico da Conceição, conhecido também como Elevador do Parafuso (só passaria a ser chamado de Lacerda em 1896, óbvia homenagem ao seu criador), tornou-se o principal meio para encurtar a distância entre os dois níveis da cidade. O equipamento ganhou eletrificação em 1907 e reforma estrutural na década de 1980. Em 1997, a última reforma chegou a oferecer um mimo que foi se esgarçando com o tempo até desaparecer sem explicações: ambiente climatizado que atenuava o calor impiedoso. Chegou-se a cogitar na época a possibilidade de transformar o Lacerda em panorâmico, mas a ideia foi reprovada pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional – IPHAN.  

Cidade inviável | Na soterópolis, há uma expressão popular para denominar a improvisação. De etimologia obscura e de cunho jocoso, “armengue” é tudo aquilo feito às pressas, sem recursos, visando suprir uma necessidade urgente. A folclorização do verbete contribuiu para que a armenguização, tão utilizada na primeira capital do Brasil,  se tornasse quase uma instituição. Aqui, o malfeito e o improviso são confundidos com criatividade espontânea, quando no fundo se trata de uma tentativa de sobrevivência diante de uma precarização crônica. Exemplo disso é o modo como os camelôs se instalam nas ruas e passarelas. Vão chegando aos poucos, carregando seus produtos baratos vindos-de-não-sei-onde, uma lonazinha de plástico cheia de furos para proteger do sol e chuva, um carrinho de compras enferrujado ou ainda qualquer pedaço de madeira roída que sirva de balcão; a fiscalização é temporã, e então puxa-se livremente um gato no poste mais próximo, utiliza-se parte da estrutura de um abrigo de ônibus e eis que surge mais um empreendedor informal. É isso ou passar fome, sem direito à poesia ou romantizações. A Bahia que Verger fotografou, Caymmi compôs, Jorge Amado escreveu e Carybé pintou, não existe mais. Talvez apenas a descrita por Gregório de Mattos perdure.

Quando funcionam, as entranhas do Elevador Lacerda reúnem, em um espaço mínimo, uma eclética galeria. Durante breves segundos, convivem com o abafamento claustrofóbico (e apreensão, diante dos últimos incidentes), a turista desconfiada, o catador de latinha desiludido, o evangélico embecado, a cidadã atrasada, o traficante arredio, o vendedor de queijo coalho raquítico, o rasta embriagado, a aposentada ativa, a trabalhadora exausta, a prostituta melancólica, o policial enfezado, o indivíduo suspeito, a estudante barulhenta, e, claro, o ascensorista blasé. No sobe e desce diário ao longo de 72 metros, ele é o único que não se irmana para sorrir, nervosamente, no único momento emocionante da travessia: o frio na barriga provocado pela chegada oscilante da cabine; as crianças se divertem mais. A porta se abre e todos saem, com certo alívio, para cuidar de suas vidas de altos e baixos.

Revista Grauçá 4

Revista Grauçá nº 3

 

 Nesta segunda-feira, 29 de março, aniversário de fundação de Salvador, começa a circular a GRAUÇÁ, primeira revista da Península. Versão on line já disponível.

Fardas & Fardos

Sonhei que havia voltado para um antigo emprego. Não descobri os detalhes da minha recontratação. Sei apenas que não estava muito contente com aquele retorno. Eu considerava aquilo o fim, a assinatura do meu fracasso: “demitido, não conseguiu se dar bem lá fora e agora volta com um sorriso amarelo, ganhando o mesmo salário no mesmo cargo sem perspectivas”, era assim que todos deviam estar interpretando, pensei. Andei meio sem graça pelas dependências do lugar, que achei sem vida. Tão sem vida quanto eu. Revi os mesmos colegas de antes, alguns mais envelhecidos, menos sorridentes, mas ainda se esforçando para demonstrar alguma alegria com a minha volta.

Evitei reencontrar os antigos patrões, com quem tive rusgas que me levaram ao cadafalso, mas, no sonho, os erros do passado não tinham mais importância. O que incomodava mesmo foi perceber meu fardamento. Camisa branca social de manga comprida, calça azul-marinho e sapatos pretos que me apertavam a alma. Para mim, voltar a usar uniforme era algo próximo à humilhação, uma clara indicação de uma vida estagnada. Etimologicamente a origem da palavra “farda” é incerta. Linguistas apontam o vocábulo em direção ao francês antigo “faldel”, que atualmente equivale a “fardeau”, ou seja, “peso”. A palavra portuguesa “fardo” teria sido originada então da dupla “faldel-fardeau”. Faz sentido, muito sentido.

Não vou levar em conta os militares, que possuem um milhão de motivos para utilizarem seus uniformes, uns mais importantes do que outros. Mas, grosso modo, as fardas nos tornam seres inviáveis e dialeticamente invisíveis. Pedimos informação a um porteiro e logo em seguida não o enxergamos mais; solicitamos a limpeza do chão a um auxiliar de serviços gerais para logo depois nos livrarmos dele. A homogeneização nos despersonaliza, nos nivela por baixo. Queria ser como aqueles que não entram em crise por causa de uma reles farda, aqueles que se mostram eficientes e contam com a sorte de se aposentarem prestando serviços importantes, ainda que subvalorizados. Como uma babá que vi outro dia sentada a um canto de uma mesa tomada por uma família inteira. O conjuntinho azul claro a deixava ainda mais diminuta, visível apenas quando a criança se manifestava. Ninguém dirigia a palavra à mulher, que, submissa, talvez estivesse satisfeita com seu trabalho, sem almejar nada mais na vida.

Sempre que passo por shoppings, aeroportos e rodoviárias, percebo as variedades de fardas que cada função exige. Percebo o fardo que cada um carrega, alguns no sentido literal, como no caso dos entregadores de móveis, de botijões de gás. Mas existem os que se pavoneiam, acreditando envergar algum importante pedaço de pano com a logomarca do patrão. As geniais empresas de Recursos Humanos com suas mirabolantes dinâmicas de grupo deveriam estar atentas a quem sofre de crônico complexo de inferioridade ou do mais leve traço de insolência. Para esses “desajustados”, o uniforme é altamente contra-indicado. Cedo ou tarde, funcionários com este perfil tentarão rasgar a roupa padronizada em nome de algo que torne suas vidas menos asfixiantes.

Acordei com uma sensação de alívio. Algumas fardas pesam como âncoras. As fardas são um fardo.

Publicado originalmente na Verbo 21.

Foto: Fundação Casa de Rui Barbosa

Noite no Milton’s Bar

[Os termômetros apontavam inacreditáveis 12º que mudaram radicalmente os hábitos da cidade. Especialistas tentavam explicar o fenômeno. Autoridades fingiam que programas emergenciais de saúde e assistência social já haviam sido colocados em prática. Literalmente alguns morriam de frio, principalmente os velhos. Os índices de violência sofreram queda acentuada. Gatunos, traficantes e homicidas locais mostraram-se bastante sensíveis ao frio. A sensação térmica chegava aos 7º]

Cheguei cedo para conseguir vaga. Nem mesmo os guardadores estavam na área. O Instituto Feminino, com suas salas mofadas, estava à espera de mais uma festa de formatura. Eu ainda tinha tempo. As futuras pedagogazinhas marcaram às oito. Empacotado na roupa beócia, vaguei desajeitado, rememorando os filmes que assisti no Art 1 e Art 2: A Volta dos Mortos Vivos, com Isabelita; Karatê Kid II, com Rebeca; Thelma e Louise, com Helen; Platoon, sozinho. Eu dera algumas voltas pelo Politeama aguardando a ligação, evitando conferir o aparelho com defeito, de vibração débil. Fui até o Campo Grande, vazio até dos que insistiam em malhar para se manterem vivos mais tempo. Na volta, passei em frente ao Hotel da Bahia e entrei no Passeio Púbico, curtindo a noite mais fria da história. Casais se esfregavam com a sensação boa de vapor quente saindo do nariz. Fiquei ali tentando ver alguma coisa, mas logo resolvi tomar uma dose que me desse ânimo para entrar no Instituto. Sabia o que era mais indicado nas redondezas. A última vez que entrei no Milton’s foi no sábado em que Cássia Eller resolveu morrer. Continuar Lendo »

Lambe-lambe XXIII

“Sem título”

Imbassaí-Santo Antônio, Mata de São João, Bahia

Copyright © Tom Correia, 2009 

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