O programa de Jorge Pedra era muito ruim. Tão ruim que era imperdível. Gente bonita da high-society baiana era entrevistada e tinha o ego massageado sempre pelo mesmo adjetivo: ma-ra-vi-lho-so. Jorge era uma espécie de Amaury Jr. local, aparecendo mais do que as “atrações” e destilando o glamour dos obscuros, sedentos por uma aparição na tela. Eventos de requintada cafonice eram cobertos com desenvoltura. Não era difícil encontrá-lo desfilando pelas ruas de Salvador [a maioria sem glamour] dirigindo o carro do “Fama e Sucesso” ou uma máquina importada, de cor amarela. A maneira como ele morreu, esfaqueado por um michê num hotelzinho do centro da cidade, não teve a sofisticação que ele pensava mostrar na TV. No fundo, a morte démodé até combinou com o gel no cabelo e o anel de ouro no dedo mínimo. Foi o último e o pior dos seus programas de domingo.
Os últimos dez quilômetros que separam Pintadas da cidadezinha mais próxima, Capela do Alto Alegre, fazem qualquer veículo sacolejar como um barco em mar de tempestade. A maior parte dos 11 mil habitantes vive na zona rural produzindo feijão, milho, alface, cenoura. Ao invés de isolados, eles sabem o que acontecem no mundo. Não são poucos os que se declaram pintadenses após conhecer o modo de vida da região. Nereide Segala tem duas pequenas fazendas na cidade. Articuladora social, ativa e sempre vigilante, ela se considera filha de Pintadas. Tornou-se agricultora quando não encontrou mais frutas para comprar num dia de semana. “Ouvi o conselho do meu filho. Fui plantar o pé em vez de ficar esperando que os outros colhessem”.
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tenho especial antipatia pelas pessoas invasivas. são pegajosas, patrulheiras e, por isso, repulsivas. já tive sérios problemas com elas por não saber como tratá-las, mas ao longo do tempo fui desenvolvendo técnicas para mantê-las distantes e sem referências. é da condição humana querer saber da vida do outro. o que não é humanamente aceitável é ser crivado de perguntas, boa parte delas sem nenhuma importância.
os invasivos são truculentos disfarçados de gente amável. convivi com uma centena deles e sei como agem. aprendi a identificá-los para evitar situações parecidas com as de 2001: ingênuo, municiei colegas que mais tarde me afanaram preciosos minutos de tranquilidade. só anos depois dominaria uma técnica de auto-proteção, me disfarçando como um deles, perguntando de tudo aos que sentem a necessidade patológica de contar suas agruras e bravatas.
além de naturalmente apreciarem a desapropriação dos terrenos alheios, os invasores se mostram sensíveis diante da rejeição. se não é permitido que eles nos asfixiem com tanto assédio, passam a nos acusar, os sufocandos, de brutos. dia após dia rastreio, identifico, rotulo e afasto esses seres de outro planeta que tentam farejar até pensamento.
simplesmente eles me cansam.
publicado originalmente na Verbo 21.
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“sem título”
Praia de Ipióca, Alagoas
Copyright © Tom Correia, 2009
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A barraca ficava em frente a uma movimentada estação de ônibus. Nosso turno começava a 1 da tarde e a primeira tarefa do dia era regar pêras e uvas acondicionadas num suporte. Era época da seda azul do papel que envolve a maçã, quando não havia competição ou rivalidade. Entre nós e os vizinhos das bancas ao lado existia solidariedade e companheirismo, fosse sob a chuva que submergia as calçadas ou sob o sol que esturricava as frutas. Os clientes eram raros e infiéis, não consigo recordar nomes ou feições. Mas lembro do arremesso certeiro feito pelo colega em direção à barraca de Tonho: a maçã, já meio estragada, se espatifando bem na sua testa. Ele mesmo não se conteve, nos contagiando com gargalhadas que duraram dias a fio. Impossível dizer como o dono do negócio conseguia manter aquilo com tanto prejuízo. Jamais tivemos uma fase tão frutívora. Estávamos crescendo, logo surgiriam as primeiras namoradas. E um mundo sisudo nos aguardava com suas azedas mercadorias expostas.
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Ensaio Beira-Mar, Beira Terra
Ribeira, Salvador, Bahia
Copyright © Tom Correia, 2009
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O navio era de bandeira polonesa. Falei com o capitão através do rádio. Seu inglês tinha um sotaque horrível, dificultando a vida. Perguntei quem ensinava idiomas em Varsóvia. “I have a dog, too”, ele respondeu. Tivemos que esperar a liberação dos burocratas do porto até partirmos num barquinho mambembe. Caía a noite e as luzes da baía me deram a impressão de que éramos uma dupla de traficantes ou cafetões, fornecendo material de fácil consumo aos marinheiros mercantes. Quase caí no mar ao subir a encosta de aço. Lá dentro as negociações se arrastaram. Meu colega era muito experiente, mas estava perdendo a batalha. O capitão-do-rosto-vermelho mostrava-se irredutível: não, não queria comprar água, mantimentos, material de limpeza, peças de reposição, nada. “Don’t put a knife in my neck”, ele disse, encerrando nossa jornada. Saímos meio cabisbaixos, atravessando um convés à meia-luz e cheirando a café moído. O vermelho do rosto do capitão era diferente do vermelho da bandeira. Quase caí no mar ao descer a encosta de aço.
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“Quando você é nocauteado, a sensação não é ruim. Na verdade, é uma sensação boa. Você não sente a dor, só se sente fortemente inebriado. Você não vê anjos nem estrelas; você se sente numa névoa agradável. Depois que Liston me acertou em Nevada, senti, por uns quatro ou cinco segundos, que na verdade todos no estádio estavam junto comigo no ringue, rodeavam-me como uma família. Quando você é nocauteado, sente carinho por todos. Você se sente amável para com todos. E tem vontade de levantar e beijar todo mundo – homens e mulheres -, e depois da luta com Liston alguém me disse que, do ringue, eu mandei um beijo para a multidão. Eu não lembro disso [...]
Mas aí esse sentimento agradável acaba. Você se dá conta de onde está, do que está fazendo ali e do que acaba de acontecer com você. E o que se segue é uma dor, uma sensação nebulosa – não uma dor física -, uma dor combinada com raiva; é uma dor do tipo o-que-é-que-as-pessoas-vão-pensar; uma dor de quem sente vergonha pela própria incompetência… e a única coisa que a gente quer é um alçapão no meio do ringue – um alçapão por onde pudesse cair e ir parar diretamente no vestiário [...] O pior de perder é ter que sair andando do ringue e encarar aquelas pessoas…”
Perfil de Floyd Patterson (1925-2006), publicado por Gay Talese em Fama & Anonimato.
Foto: Tom Goldman, 1956
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Era nas férias. Chegávamos pela manhã na pequena oficina e, se tivesse algum serviço, nos alegrávamos com a possibilidade de manchar a bermuda de óleo. As chaves tilintavam dentro de uma caixa de ferramentas azul, que pesava mais do que nós. Eu apertava parafusos, retirava para-choques e para-lamas, lavava carros até o meio-dia. O motor era um labirinto; a caixa de marchas, um mistério. Quando havia grana, o almoço era feito na lanchonete de seu Evilásio, que preparava mistos-quentes e sucos de laranja. O pagamento era sempre aos sábados. O tio nos pagava de acordo com os cargos e a importância de cada pseudo-mecânico mirim. Eu recebia menos, mas com a alegria de quem fez por merecer a recompensa. Não lembro como gastava o dinheiro. Recordo apenas que o maçarico à base de carboreto fez uma chaparia no meu coração.
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No maior núcleo cerâmico da América Latina, comunidade dos oleiros de Maragogipinho, no Recôncavo Baiano, resiste aos contratempos em nome de orgulho ancestral
Texto e fotos: Tom Correia
Primeiro um ferry, depois um microônibus e, por último, um mototáxi. Para sair de Salvador e chegar pela primeira vez àquele labirinto foram necessárias três conduções. Vielas e reentrâncias se apresentaram bifurcando caminhos, mas sempre oferecendo portas receptivas. As construções lembram imensas ocas cobertas de palha, cercadas por varetas de madeira. No entanto, a cor morta das fachadas contrasta com a infinidade de matizes e texturas no interior de cada olaria. Ali, o calor assume formas múltiplas: térmico, humano, ritualístico. Circula-se pelo sem-número de esculturas ouvindo-se um rádio ligado. Estações AM veiculam as notícias, unindo o lugarejo ao que restou do planeta após milênios. Quando se chega a Maragogipinho, surge a possibilidade de reinterpretar o Gênesis, o princípio de tudo, a influência mútua entre a terra e o homem que aprendeu a manipulá-la para o seu sustento material e filosófico… [Matéria completa]
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