
Você finalmente chega em casa após enfrentar o trânsito, ruas cheias de lixo e de gente suada, sacizeiros embuçados nas esquinas e se depara com uma correspondência. O volume é considerável e, pela época do ano, já é possível imaginar alguma promoção, alguma jogada publicitária extorsiva. De tão cheio, o envelope quase se rompe sozinho. O conteúdo pulula e se esparrama pela escrivaninha.
Seis cartões de Natal, pintados por deficientes físicos de São Paulo, vieram acompanhados de uma cartinha singela. Tenho pavor de cartões de Natal, mas estes são até bem feitos, mostrando aqueles motivos de sempre, sagrada família, menino Jesus, anjinhos sorridentes, manjedoura etc. O detalhe, louvável até, é que não são pintados com as mãos, fato que dá nome à Associação Pintores Com a Boca e os Pés (APBP), inaugurada em 1956 na capital paulista. A carta, de tom sobriamente sentimental, foi escrita à boca por um dos pintores. Diz, entre outras coisas, que “pretendemos ser úteis e não depender de caridade (…) assim, oferecemos-lhe essa coleção pelo preço de R$ 25 sem compromisso…”.
Beleza. A iniciativa de abrigar artistas plásticos que infelizmente se tornaram tetraplégicos ou que nasceram com má formação genética parece justificada. Mas a questão é: como eles conseguiram meus dados, meu endereço completo com a exatidão milimétrica de um google maps? Inúmeras matérias já mostraram que cd’s com dados cadastrais de pessoas físicas são vendidos livremente na 25 de março. Posturas politicamente corretas demais são enfadonhas, mas essenciais para alguns. Eles deveriam ter feito uma consulta anterior a potenciais-compradores-de-cartões-de-natal-pintados-por-deficientes. Básico. Por essas e outras, depois da fase do deslumbramento nos anos 1990, as ONG’s estão sempre sob suspeita no Brasil. Não são poucos os casos de benefício próprio, motivação escusa, desvio escandaloso de doações por parte de instituições que dizem cumprir o papel do Estado ausente.
Não acredito que a APBP tenha mandando um office-boy comprar um cd nas esquinas do centro paulistano, mas resolvi conferir. Mandei email através do site, depois de me recusar a registrar meu telefone no cadastro. Não me responderam. Esta semana resolvi ligar.
“Bom dia, recebi cartões de vocês. Como conseguiram meus dados?”
“Senhor, temos milhões de grandes empresas que nos apóiam e que nos passam os dados dos seus clientes”, a voz da recepcionista era educada, cheia de sotaque é nóis.
“Mas eu não autorizei que empresa alguma passasse meus dados.”
“Entendo senhor, mas infelizmente não temos como informar qual empresa nos repassou seu cadastro. Mas se o senhor não tiver interesse, pode devolver o envelope em qualquer caixa dos correios, sem custo”, muito educada.
Desliguei. Então era simples assim. Pelo visto eles consideram normal a estratégia. Devo ser mesmo muito insensível. Os cartões estão aqui, em algum lugar, esperando a próxima faxina.
Publicado originalmente na Verbo 21.





